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Panico
Do humor marginal ao sucesso de público
Quando surgiu, em 2003, o humor quase marginal do Pânico angariava ao mesmo tempo gargalhadas e repúdio. O escracho só começou a ser levado a sério pela concorrência em 2004, com as Sandálias da Humildade - quadro em que o humorista Ceará, travestido de Sílvio Santos, e o Repórter Vesgo perseguiam gente reconhecidamente esnobe para fazê-los calçar um par de sandálias douradas. Gostasse ou não, o público começava a perceber, na bizarra caçada a personalidades como Luana Piovani, Daniela Cicarelli e até o argentino Diego Armando Maradona, que algo diferente - ainda que incômodo - acontecia na TV. Desde então, usar a celebridade como 'escada' para a piada passou a ser marca do programa.
É claro que nem todo famoso leva na esportiva as perguntas inconvenientes. Mas o Pânico não está nem aí para o que pensa o entrevistado. "O programa leva o deboche um grau acima do que é convencional. Ele ridiculariza a celebridade, e isso é o bom do programa. Ao mesmo tempo, deixa a celebridade se divertir e transforma gente comum momentaneamente em figura ilustre", analisa Eugenio Bucci, jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP.
O Pânico inova, mas também imita.
E quando percebe um filão que mantém a atenção do público não hesita em copiar, a seu jeito, um formato 'matador. Os momentos finais do programa do dia 23 de maio foram reservados aos 15 minutos de fama de Gorete, uma jovem pobre e com quase nenhum dente, que sonhava em se parecer com Gisele Bündchen. Implantes dentários e de cabelos, tratamento de beleza, novas roupas e a reforma do apartamento de Gorete - com direito a um clone de Luciano Huck mostrando os novos móveis - ajudaram a segurar a audiência para o programa igualar o recorde de pico de audiência do ano passado: 17,6 pontos no Ibope. Como se sabe, dar casa nova e melhorar o visual de alguém não pode ser considerado novidade na TV há um bom tempo.
Os produtores rejeitam a acusação de que tentam alavancar a audiência com conteúdo apelativo. Mas os números da audiência mostram que esse tipo de imagem, pelo menos no Pânico, rende bom Ibope. O recorde de audiência no ano passado, de 17,6 pontos, ocorreu no momento em que boa parte do programa era ocupada pelo Xurupita's Farm, uma paródia do reality show A Fazenda, da Record. Corridas na lama com algumas 'panicats' com pouquíssima roupa foram apenas algumas das bizarrices do quadro, que tinha esse nome em homenagem ao Zina da Xurupita, nome artístico de Marcos da Silva Heredia, o 'dono' da fazenda do Pânico.
Zina, morador de uma região paupérrima de São Paulo, foi transformado em humorista e incorporado ao elenco depois de, numa entrevista de rua, produzir um bordão: com a fala arrastada, ele repetia "Ronaldo!", dirigindo-se ao jogador do Corinthians. Detido com cocaína no fim do ano passado, ele foi afastado do programa e admitiu ser dependente químico - explicou-se, então, sua dificuldade de articular frases maiores que os curtos bordões que, trabalhados na ilha de edição, rendem gargalhadas na televisão.
Para quem conhece a gênese de grandes novidades da TV, o processo de ascensão do Pânico, da quase marginalidade ao filé da audiência, não é novo. "Quando surgiu o Casseta e Planeta, era esse tom acima que marcava o humor do grupo. Fausto Silva, que surgiu com o 'Perdidos na Noite' e hoje é líder de audiência na Globo, também apareceu na TV como contestação, como transgressor", lembra Bucci
Fonte: G1